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Avenida Brasil

Texto escrito por Paulo Catto e originalmente publicado no jornal O Diário em 25/04/2015 <http://digital.odiario.com/opiniao/noticia/826545/avenida-brasil/>

A Avenida Brasil não pode ser transformada em uma via de mão única.

Nas últimas semanas muito tem se falado sobre a Avenida Brasil, principalmente após a retirada das vagas de estacionamento do canteiro central. Essa primeira intervenção foi executada de maneira impositiva, sem diálogo, o que gerou protestos por parte dos comerciantes da Brasil. Agora mais organizados, os trabalhadores e empresários lutam pela não implantação do sistema binário. A Avenida Brasil não pode ser transformada em uma via de mão única. As diversas razões para isso são claras, mas algumas precisam ser expostas a partir do ponto de vista técnico do projeto e do planejamento urbano.

Sem mencionar interesses particulares que existem na alteração do fluxo da Avenida Brasil para um sentido único, devemos considerar o suposto objetivo prático da operação: a melhora da fluidez do trânsito na área central de Maringá. Todos concordamos que a situação do trânsito na cidade piora a cada dia. Essa piora ocorre na maioria das cidades brasileiras, médias e grandes, e se deve ao aumento da frota de veículos particulares em nosso país, que por sua vez é fruto de uma política nacional que estimula a produção e o consumo de automóveis, como uma das estratégias para o crescimento da economia. Ao mesmo tempo, as conseqüências urbanas dessa postura, como o aumento dos congestionamentos e a deterioração da mobilidade, são “combatidas”, ou melhor, remediadas com grandes obras de infra-estrutura viária, de maneira sistemática em todo o país. Também isso temos observado em Maringá recentemente, e aí também existem “desvios” de interesses.

A principal medida realizada em Maringá visando a melhora no trânsito de veículos foi a implantação do sistema binário nas avenidas Paraná, Duque de Caxias, Herval e São Paulo. A alteração conseguiu deixar o trânsito mais fluido, uma vez que as avenidas funcionam duas a duas, com sentido de ida e volta nas direções norte e sul. Acontece que não é possível aplicar a mesma lógica para o sentido leste-oeste. A Avenida Brasil é a única via que atravessa a cidade de ponta a ponta passando pela área central. Não existe outra via com a mesma abrangência. Nenhuma outra avenida ou rua seria capaz de “formar par” com a Brasil para compensar o fluxo no outro sentido. Por essa razão o próprio termo “binário” não faz sentido. Não é possível transformar a Brasil em uma avenida de mão única, pois suas vizinhas Joubert de Carvalho e Mauá, por exemplo, não têm o mesmo alcance. Seria criado um problema maior para o fluxo de retorno, sobrecarregando outras ruas e tornando o trânsito mais caótico. A Avenida Brasil deve manter seus dois sentidos de fluxo. Isso é essencial tanto para a mobilidade na cidade quanto para a saúde da própria avenida e do comércio que ela abriga.
A retirada das vagas em espinha-de-peixe já obteve um efeito razoável para a melhor fluidez da avenida. A implantação da ciclovia e dos pontos de ônibus no canteiro são, em tese, positivos para avenida ao proporcionar melhores condições de mobilidade para pedestres, ciclistas e usuários do transporte público. O projeto poderia ser melhor discutido, mas a proposta é positiva e já foi implantada. Os comerciantes que ainda reclamam da falta de vagas de estacionamento precisarão se adaptar e compreender que a vida das cidades está nas pessoas e não nos carros. Reivindicar mais vagas de estacionamento nos espaços públicos é ir na contramão do urbanismo mundial.

Mas agora eles estão corretos: a Avenida Brasil precisa ser mantida em mão dupla. Se for alterada para mão única, além de complicar o trânsito das vias do entorno, a Brasil se tornará uma via mais rápida, mais poluída, mais barulhenta e conseqüentemente mais inóspita às pessoas, aos pedestres, cidadãos e usuários do comércio e dos serviços da Avenida Brasil. Em resumo, a ideia de transformar a Avenida Brasil em uma via de mão única não se sustenta. Do ponto de vista do trânsito, é uma medida desnecessária e ineficiente. Falar em sistema binário para a Brasil é uma incoerência. Se formos ouvir a opinião pública como é devido, fica bem claro que os empresários, trabalhadores e usuários da avenida desaprovam a proposta. Quer dizer: vai piorar, não precisa e ninguém quer.