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Casa da Sustentabilidade

Campinas | SP
2016 [concurso de projetos]

HABITAR, NATURALMENTE

O projeto propõe a criação de um lugar habitável dentro do Parque Taquaral. Ao contrário do que seria um edifício-objeto, implantado sobre o terreno de modo a ser contemplado em seus ângulos mais vistosos, o que se propõe é potencializar o território por meio de uma arquitetura “porosa” completamente integrada ao parque. A relação com a paisagem em que se insere é o ponto de partida e chegada, e o resultado é um equipamento público permeável à luz, à água, ao vento e aos fluxos das pessoas.

A implantação dessa casa então se apropria das diretrizes dadas pela natureza: a declividade do terreno; o curso d’água; o sentido predominante do vento e a orientação solar. É o sítio que indica as soluções da arquitetura.

Começando ao norte onde estão as hortas e mantendo-se quase plano na cota 644.50m, o embasamento segue até o auditório ao sul percorrendo cerca de 150 metros. Essa plataforma sugere um passeio pelo parque através do edifício conduzindo os visitantes por percursos diversos, porém claros e legíveis, em um constante dentro-e-fora acompanhando os caminhos das águas.

A água que antes estava canalizada e oculta agora se revela em dois momentos. Um filete de água conduz o fluxo ao longo da sequência de espaços que compõem o programa abrigado sobre a base construída. Ao lado, é o próprio desenho do embasamento que aproveita o desnível em relação terreno e represa a água que desce seu curso natural em direção ao grande lago do parque, conformando espelhos d’água que banham o edifício, onde as pessoas podem desfrutar desse ambiente de praia junto aos degraus da arquibancada. O espelho d’água também tem a função de retenção da água pluvial em situações de chuva muito volumosa.

O espaço entre o edifício e a mata a leste deste tem uma escala de praça sem, no entanto, tornar-se um ambiente fechado. Lugar de concentração de pessoas onde a multiplicidade de caminhos e passagens motiva e induz o contato, trocas e convívio social. O projeto estimula a integração entre o prédio em si e os espaços abertos do parque.

O programa é distribuído entre os volumes de taipa sob planos de cobertura verde. O uso dos espaços, assim como a organização dos fluxos por entre paredes, salas e varandas, depende de constante interpretação por parte do usuário. Da mesma forma, permite múltiplas abordagens “museológicas”. As atividades, feiras, aulas e apresentações, mostras e exposições podem ser realizadas em diferentes pontos do projeto. A abundância de espaços cobertos mas expostos possibilita os acontecimentos espontâneos. Até mesmo suas “praças” transformam-se em canteiros experimentais nos quais pequenos equipamentos, métodos construtivos e soluções cotidianas são ensinados. Ao longo dos anos, através de cada construção e reconstrução destes itens, será edificada também a memória do edifício e seu significado para as pessoas. O grande fato do edifício não é sua imagem, mas sim suas possíveis apropriações.
Assim como nas antigas casas bandeiristas, a Casa da Sustentabilidade utiliza a terra em suas paredes e a madeira na estrutura de sua cobertura. A terra compactada possui ótimas propriedades de isolamento térmico e acústico, além de ser um material que “respira”. Para confeccionar a taipa das paredes é possível usar a terra da região, desde que seja corrigido seu traço e adicionada pequena porcentagem de cimento e outros componentes, para torná-la mais durável e resistente à água.

A cobertura se divide em três planos independentes que flutuam acima dos volumes terrosos. Cada plano é um retângulo regular de cerca de 500m² que organiza a distribuição do programa em três grupos principais – o primeiro abriga a administração, a cobertura central guarda a cozinha e os espaços livres de exposição, que por sua vez conectam ao auditório, sob o terceiro plano de cobertura. A estrutura que suporta a cobertura verde é toda em madeira certificada – pilares, vigas e forro. Acima do forro é feita a captação da água pluvial, por meio de uma camada impermeabilizada sob o substrato em que a forração vegetal foi plantada. Painéis fotovoltaicos estão instalados nas coberturas da administração e do auditório, devido a sua posição mais favorável.

Toda a água captada pelos planos de cobertura é armazenada em cisternas sob o piso do embasamento. A água é filtrada e tratada antes de ser utilizada no edifício. As águas servidas são recolhidas em tanques que também se encontram sob o piso, dentro do embasamento, onde sofrem as primeiras etapas de tratamento para depois retornarem ao espelho d’água onde espécies de plantas macrófitas continuam o processo de filtragem dessa água antes que ela chegue ao lago do parque. O acúmulo de água em alguns pontos das lagoas construídas é o que permite quedas onde estão instaladas as rodas d’água para geração de energia e acionamento das bombas e mecanismos de tratamento.

A estratégia empregada foi a da simplicidade na escolha dos materiais. Clareza na implantação e legibilidade na disposição do programa. Sem nunca abrir mão da tecnologia, manter relação com as referências tradicionais e afetivas da comunidade em que se insere. Uma casa que se ergue da terra, recebe a água, abre-se ao vento e absorve a energia do sol. Arquitetura que potencializa o lugar, promove a convivência, e transforma a consciência coletiva.