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Rua Maria Antônia: em memória de 1968

Poucos anos traduziram tão fielmente a dramática tensão entre o “o velho” e “o novo” como 1968. “As pessoas se deram conta de que estavam vivas, de que não
precisavam mais se conformar com os papéis predeterminados que lhes queriam
impor”, comentou o dramaturgo José Celso Martinez Correa, do Teatro Oficina.

Há exatos 50 anos acontecia a batalha da rua Maria Antônia majoritariamente entre estudantes da USP, contra a ditadura militar, e grupos do Mackenzie, a favor do regime. O conflito era ideológico, político, mas também comportamental e cultural. A Maria Antônia, nesta época, representava em São Paulo toda a ebulição que tomava conta do planeta.

Em 1968 o mundo transbordou. A história avançava com velocidade,
e em um período histórico de poucos meses produziu um conjunto de transformações estéticas, comportamentais e artísticas que, até hoje, são incontáveis. Às manifestações estudantis e lutas operárias somavam-se as rápidas mudanças nas convenções sociais com a revolução sexual proporcionada pela pílula anticoncepcional, pela camisinha, pela minissaia e com a organização de negros, homossexuais e feministas para reivindicação de seus direitos.

Em São Paulo, a Maria Antônia do período ditatorial era um polo de ação política, festiva, cultural e comportamental de contestação, protagonizado pela faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, e por outras faculdades da mesma universidade localizadas no entorno próximo como a FAU e a FEA. A resistência acontecia dentro das salas de aula, nos corredores das faculdades, nas assembleias e nos bares da região.

O principal destes bares era o Bar do Zé, ainda hoje existente, localizado na esquina da Maria Antônia com a Dr. Vila Nova, que era o centro da vida social dos uspianos. Nas suas mesas, além de cerveja, haviam acaloradas discussões políticas, culturais e musicais, enquanto o seu porão servia de esconderijo aos estudantes perseguidos pela polícia do regime militar. O dono do bar, o português José Rodrigues, conta que em seu bar, ele já serviu sanduiches de pernil, churrasco com queijo, pão com ovo para figuras como Delfim Neto, Fernando Henrique Cardoso, Jose Dirceu, Chico Buarque, Carlos Lyra, Toquinho, Mário Prata e muitos outros.

“O bar do zé era o ambiente em que você sempre encontrava alguém, um papo interessante, sempre tinha o que fazer. Disso eu lembro, não havia depressão, solidão...Era o Prozac da época! Um papo cultural, politico...Era esperar meia hora lá, chegava alguém com quem você tinha algum tipo de afinidade. E gente muito variada: da Psicologia, da FAU, da FEA, da Filosofia, das Ciencias sociais.” Relata Elias, ex-militante estudantil do Instituto de Psicologia da USP.
O bar do Zé é um lugar da memória, um daqueles lugares nos quais a imaginação o investe de aura simbólica, afinal, ele sintetiza e materializa a revolução política e cultural que acontecia naquele período naquele lugar, e que de alguma maneira transformou nosso cotidiano atual.

Como forma de acionar esta memória, deixamos aqui uma imagem lembrança-projeto, afinal a memória não é uma instancia estática, voltada ao passado, mas um processo, uma informação para uma ação futura.

Nesta ação, o bar seria emoldurado como memória viva, com a inserção de novos programas acima e abaixo da construção existente. Abaixo de seu piso, o porão-esconderijo seria ressignificado com a criação de um espaço para apresentações musicais independentes, pequenos festivais, lugar de apresentação dos chicos, caetanos e toquinhos do século XXI. Acima de sua laje de cobertura um volume suspenso, espécie de lanterna chinesa que paira sobre a boemia criando dois terraços para a cidade, uma na laje do Zé, a outra no topo do edifício. A primeira como uma varanda de primeiro andar, a partir da qual se tem contato íntimo com o que acontece nas calçadas. A segunda como mirante, lugar da onde se enxerga todo o palco, digo, rua. No interior do volume suspenso um espaço destinado às pessoas e eventos que povoaram aquela rua em 68, um edifício-mural para que possamos olhar o que foi e projetar o que será. No térreo tudo continuaria como está, cerveja gelada, sanduba de pernil e mesas pra falar bobagem, pensar política, organizar festas ou blocos de carnaval - estes cada vez mais presentes e perenes ao longo do ano paulistano.

Certa vez alguém falou que a relação entre memória e porvir seria como um arco e flecha, quanto mais para trás é tensionada a corda do arco mais longe vai a flecha. De acordo com esta analogia, lembrar o que passou é entender nossas potencialidades, as conquistas das quais não estamos dispostos a abrir mão, como a liberdade e a democracia, e aquilo que precisa ser superado de vez.

Esse talvez fosse um caminho mais sólido, lastreado no passado, livre de atalhos que ponham tudo a perder.

Referências:
AMENDOLA, Gilberto. Maria Antônia: a história de uma guerra. São Paulo: Letras do Brasil, 2008.
CINTRA, André. 1968, o ano em que os estudantes ficaram cara a cara com a utopia. Disponível em: <http://www.vermelho.org.br/noticia/311294-1> Acesso em: 02 de Outubro de 2018
MORTADA, Samir Perez. Tempos da política: memórias de militantes estudantis do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. 2008. Tese (Doutorado em Psicologia Social) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. doi:10.11606/T.47.2008.tde-17092010-135320. Acesso em: 2018-10-03